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quarta-feira, 11 de março de 2009

Não tem desculpa

Incrível como algumas palavras e expressões são totalmente vazias de significado. Mais impressionante ainda é como outras podem significar exatamente o oposto do que pretendem. Toda essa minha análise semântica começou com um pequeno momento de reflexão que decidi tomar sobre uma frase comumente dita por qualquer um de nós: “Desculpa qualquer coisa”. A reflexão veio depois de perceber que a expressão vinha me causando muita repulsa. E por que seria? Cheguei à conclusão de que era porque a frase é um total engodo. É a pele de cordeiro que o lobo usa pra se esconder no rebanho. O intuito das singelas palavras é de se mostrar humilde, de reconhecer sua falibilidade e demonstrar grandeza de espírito de reconhecer os próprios erros. Acontece que a frase faz justamente o contrário.
Em primeiro lugar, a pessoa que a profere é incapaz de reconhecer o que fez de errado. Ora, até onde sei, a moral e a ética se definem justamente pela capacidade de discernir entre o certo e o errado – e escolher o caminho mais nobre. Ao dizer “desculpa qualquer coisa”, a pessoa pede um salvo-conduto para suas atitudes, algo do tipo “esquece o que fiz até agora”, sem nenhuma garantia de que não se repetirá no futuro, dado que a pessoa não sabe o que fez de errado.
E não humildade em não se reconhecer exatamente a atitude errada tomada, a palavra injusta dita, o gesto desnecessário realizado. O que é o mais difícil em se pedir desculpas? É reconhecer que aquele ato específico foi errado, que não se deveria ter agido daquela forma. A especificidade é a chave do negócio aqui. Reconhecer o exato erro é o pré-requisito das desculpas.
Resumo da ópera? Dizer “desculpa qualquer coisa” é dizer, na verdade, “desculpa por nada”.